terça-feira, 22 de maio de 2012

ser religioso! valter hugo mãe

ser religioso é desenvolver uma mariquice no espírito. um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bicho papão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos, esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua mini-saia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças, o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sinais de Fogo (Jorge de Sena)

          A diferença que havia entre ela e a Mercedes era tão grande! Como a que ia de uma escada escura até ao mar largo em frente à balaustrada. Não escreveria. Tudo acabaria em silêncio, eu não lhe apareceria mais. Ela não tivera para mim a mínima importância. E era uma rapariga que, mal me conhecendo, quase se me entregara. E eu mal a conhecia. Senti um baque surdo. E a Mercedes, eu conhecia-a melhor? Noiva do Almeida, não se abandonara aos meus braços e aos meus beijos? Não os procurava até? Porque afinal gostava de mim, e porque eu gostava dela. Ao ver-me, ela percebera que de mim é que gostava. Novamente ouvi o Macedo dizendo as suas tolices. Sim ... mas era de mim que ela gostava. E desci para o jantar.

sábado, 7 de abril de 2012

Roubalheira (A Mina de Diamantes)

A diferença que há entre a Europa e a América é que na América a roubalheira é organizada e aqui, não digo desorganizada, mas no estado de inorgânica. Na América tudo molha a sua sopa: o ministro, o vereador, o mestre-de-obras, o dono do hotel, o merceeiro, o engraxate. É o círculo napolitano dos comilões. Um mete a mão no bolso do vizinho, o vizinho no bolso do parceiro mais próximo, aquele no que está a seguir, assim por diante. Fechado o circuito, todos roubaram, portanto ninguém ficou roubado. Na Europa não. Nem sempre rouba o ministro, mas deixa roubar o secretário. Rouba o senador ou ajuda a roubar; não rouba o magistrado, mas fecha os olhos. Não rouba o chefe, mas permite que roube o manga-de-alpaca; rouba o estalajadeiro; rouba, se pode, o criado de mesa; rouba o engraxador ...

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Democracia (Rimbaud)

A bandeira reflecte a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.
Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.
Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.
Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz; inaptos para a ciência, esgotadospara o conforto; e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Aulo Gélio sobre Séneca


Já estou a ficar cansado de Séneca. Ache quem quiser que Séneca merece ser lido e estudado pelos jovens, ele que achou por bem comparar a gravidade e o tom dos autores arcaicos com os leitos de Sotérico, isto é, com moveis destituidos de beleza, já passados de moda, monos de que ninguém gosta. Apesar de tudo, vale a pena citar alguma coisa, pouca, de Séneca digna de menção, como é aquele seu excelente dito dirigido a um avarento, ambicioso até mais não, atormentado pela sede de dinheiro: "Que importam os bens que possuis se muito mais numerosos são aqueles que não possuis?"



segunda-feira, 26 de março de 2012

Cobra (Herberto Helder)


Eu iria até ao centro onde flutua a constelação
                 da dança, com as labaredas
                 a mergulhar
em baixo. Ou à frente, os relâmpagos do corpo culminando.
Toco-lhe as campânulas quando os balcões
                 se debruçam na atmosfera,
                 e as colinas irradiam com os astros
                 cravados, e desorientam
os olhos. A minha idade escapa-se de um lado
para o outro, sob os dedos, como um nervo
                fulgurante.
                Vou morrer.
                O ouro está perto.


Soneto de Eurydice (Sofia de Mello Breyner Andresen)

Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povo terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.