sábado, 7 de abril de 2012
Roubalheira (A Mina de Diamantes)
A diferença que há entre a Europa e a América é que na América a roubalheira é organizada e aqui, não digo desorganizada, mas no estado de inorgânica. Na América tudo molha a sua sopa: o ministro, o vereador, o mestre-de-obras, o dono do hotel, o merceeiro, o engraxate. É o círculo napolitano dos comilões. Um mete a mão no bolso do vizinho, o vizinho no bolso do parceiro mais próximo, aquele no que está a seguir, assim por diante. Fechado o circuito, todos roubaram, portanto ninguém ficou roubado. Na Europa não. Nem sempre rouba o ministro, mas deixa roubar o secretário. Rouba o senador ou ajuda a roubar; não rouba o magistrado, mas fecha os olhos. Não rouba o chefe, mas permite que roube o manga-de-alpaca; rouba o estalajadeiro; rouba, se pode, o criado de mesa; rouba o engraxador ...
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Democracia (Rimbaud)
A bandeira reflecte a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.
Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.
Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.
Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz; inaptos para a ciência, esgotadospara o conforto; e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!
Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.
Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.
Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz; inaptos para a ciência, esgotadospara o conforto; e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!
quinta-feira, 29 de março de 2012
Aulo Gélio sobre Séneca
Já estou a ficar cansado de Séneca. Ache quem quiser que Séneca merece ser lido e estudado pelos jovens, ele que achou por bem comparar a gravidade e o tom dos autores arcaicos com os leitos de Sotérico, isto é, com moveis destituidos de beleza, já passados de moda, monos de que ninguém gosta. Apesar de tudo, vale a pena citar alguma coisa, pouca, de Séneca digna de menção, como é aquele seu excelente dito dirigido a um avarento, ambicioso até mais não, atormentado pela sede de dinheiro: "Que importam os bens que possuis se muito mais numerosos são aqueles que não possuis?"
segunda-feira, 26 de março de 2012
Cobra (Herberto Helder)
Eu iria até ao centro onde flutua a constelação
da dança, com as labaredas
a mergulhar
em baixo. Ou à frente, os relâmpagos do corpo culminando.
Toco-lhe as campânulas quando os balcões
se debruçam na atmosfera,
e as colinas irradiam com os astros
cravados, e desorientam
os olhos. A minha idade escapa-se de um lado
para o outro, sob os dedos, como um nervo
fulgurante.
Vou morrer.
O ouro está perto.
Soneto de Eurydice (Sofia de Mello Breyner Andresen)
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povo terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.
Carta 109
Os indivíduos perversos fazem mal uns aos outros, tornam-se mutuamente piores, na medida em que desperam a ira, favorecem o mau caráter, enaltecem os prazeres; tais indivíduos são mesmo tanto mais nocivos quanto mais partilham os sus vícios e juntam as suas forças maléficas com um objetivo comum. O contrário é igualmente válido: um homem de bem só ode ser útil a outro homem de bem. "De que modo?", perguntarás tu. Transmitir-lhe-á o seu contentamento, reforçará a sua autoconfiança; a contemplação mútua da respetiva tranquilidade fará aumentar em ambos a alegria. Além disso pode ainda proporcionar-lhe o conhecimento de certas matérias, já que mesmo um sábio não pode saber tudo.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Europa (Michel Houellebecq)
De um modo geral, vivia-se um período ideologicamente estranho, em que qualquer um na Europa parecia convencido de que o capitalismo estava condenado, e até condenado a breve prazo, de que ele vivia os seus derradeiros anos, apesar de os partidos da extrema esquerda não conseguirem seduzir mais que a sua clientela habitual de masoquistas recalcitrantes. Parecia ter-se espalhado sobre os espiritos um véu de cinzas.

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