segunda-feira, 26 de março de 2012

Soneto de Eurydice (Sofia de Mello Breyner Andresen)

Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povo terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

Carta 109

Os indivíduos perversos fazem mal uns aos outros, tornam-se mutuamente piores, na medida em que desperam a ira, favorecem o mau caráter, enaltecem os prazeres; tais indivíduos são mesmo tanto mais nocivos quanto mais partilham os sus vícios e juntam as suas forças maléficas com um objetivo comum. O contrário é igualmente válido: um homem de bem só ode ser útil a outro homem de bem. "De que modo?", perguntarás tu. Transmitir-lhe-á o seu contentamento, reforçará a sua autoconfiança; a contemplação mútua da respetiva tranquilidade fará aumentar em ambos a alegria. Além disso pode ainda proporcionar-lhe o conhecimento de certas matérias, já que mesmo um sábio não pode saber tudo.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Europa (Michel Houellebecq)

De um modo geral, vivia-se um período ideologicamente estranho, em que qualquer um na Europa parecia convencido de que o capitalismo estava condenado, e até condenado a breve prazo, de que ele vivia os seus derradeiros anos, apesar de os partidos da extrema esquerda não conseguirem seduzir mais que a sua clientela habitual de masoquistas recalcitrantes. Parecia ter-se espalhado sobre os espiritos um véu de cinzas.


terça-feira, 20 de março de 2012

Todas as cartas de amor são ridículas (Álvaro de Campos)


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Carta 101


Como é estúpido fazer planos para uma longa vida quando não se é sequer senhor do dia seguinte! Como são insensatos todos quantos formulam esperanças a longo prazo: hei-de comprar, hei-de construir, hei-de emprestar dinheiro e cobrá-lo com juros, hei-de fazer carreira na política - e logo me guardarei para a vida privada quando estiver velho, mas bem provido de meios! ... Podes crer no que te digo: mesmo os favorecidos da fortuna carecem de segurança. Ninguém deve fazer projectos para o futuro, pois mesmo o que nós seguramos nos escapa das mãos, mesmo a hora que vivemos qualquer acaso a interrompe. O tempo escoa-se segundo uma lei racional, mas obscura para nós; que me adianta saber que tudo se processa segundo a lei da natureza se para mim reina a incerteza?

segunda-feira, 19 de março de 2012

Carta 98

Esta disposição de espírito consegue-se pensando na instabilidade da vida humana antes de a experiemtarmos em nós, olhando para os filhos, a mulher, os bens como algo que não possuiremos para sempre, e evitando imaginarmo-nos mais infelizes um dia que deixemos de os possuir. Será a ruína do espirito andarmos ansiosos pelo futuro, desgraçados antes da desgraça,. sempre na angústia de não saber se tudo o que nos dá satisfação nos acompanhará até ao último dia; assim, nunca conseguiremos repouso e, na expetativa do que há-de vir, deixaremos de aproveitar o presente. Situam-se, de facto, ao mesmo nível a dor por algo perdido e o receio de o perder.

sábado, 17 de março de 2012

Carta 94

Quem se vai vestir de púrpura senão para se exibir? Quem usa baixela de ouro para comer sozinho? Quem, estendido sozinho no campo, à sombra de uma árvore, faz estadão de todo o seu luxo? Ninguém se adorna para se autocontemplar, nem sequer para se apresentar diante de alguns amigos e familiares; adequa, sim, o aparato dos seus vícios às dimensões da multidão que o observa! É assim mesmo: se alguém admira ou conhece o objeto das nossas loucuras, ainda mais nos comprazemos nelas. A falta de ocasião para os exibir afastar-nos-á de desejos insensatos. Ambição, luxo, excessos, precisam de um palco: tira-lhes o público, sanarás esses vícios.