segunda-feira, 19 de março de 2012

Carta 98

Esta disposição de espírito consegue-se pensando na instabilidade da vida humana antes de a experiemtarmos em nós, olhando para os filhos, a mulher, os bens como algo que não possuiremos para sempre, e evitando imaginarmo-nos mais infelizes um dia que deixemos de os possuir. Será a ruína do espirito andarmos ansiosos pelo futuro, desgraçados antes da desgraça,. sempre na angústia de não saber se tudo o que nos dá satisfação nos acompanhará até ao último dia; assim, nunca conseguiremos repouso e, na expetativa do que há-de vir, deixaremos de aproveitar o presente. Situam-se, de facto, ao mesmo nível a dor por algo perdido e o receio de o perder.

sábado, 17 de março de 2012

Carta 94

Quem se vai vestir de púrpura senão para se exibir? Quem usa baixela de ouro para comer sozinho? Quem, estendido sozinho no campo, à sombra de uma árvore, faz estadão de todo o seu luxo? Ninguém se adorna para se autocontemplar, nem sequer para se apresentar diante de alguns amigos e familiares; adequa, sim, o aparato dos seus vícios às dimensões da multidão que o observa! É assim mesmo: se alguém admira ou conhece o objeto das nossas loucuras, ainda mais nos comprazemos nelas. A falta de ocasião para os exibir afastar-nos-á de desejos insensatos. Ambição, luxo, excessos, precisam de um palco: tira-lhes o público, sanarás esses vícios.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Carta 92

O único bem autêntico é aquele que nunca se deteriora. O homem feliz é aquele que nenhuma circunstância inferioriza; que permanece no cume sem outro apoio além de si mesmo, pois quem se sustenta com o auxílio dos outros está sujeito a cair. Se assim não fosse, começariam a ter ascendente sobre nós coisas que nos são exteriores. Haverá alguém que deseje estar na dependência da fortuna? Qual o homem de bom senso que se envaidece do que não lhe pertence? A felicidade não é mais do que a segurança e a tranquilidade permanentes. Quem no-las proporciona é a grandeza de alma, bem como a constante perseverança na correção das nossas ideias. Os meios de atingir este estado estão na plena consideração da verdade; em observarmos sempre nas nossas ações a ordem, a moderação, a moralidade, a inocência e a benevolência de uma vontade sempre atenta à razão, nunca desta se apartando, digna ao mesmo tempo de amor e de admiração.

domingo, 11 de março de 2012

Escavação (Mario de SÁ-CARNEIRO)

Numa ansia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.
Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente á força de sonhar…
Mas a vitória fulva esvai-se logo…
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo…
—Onde existo que não existo em mim?
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Um cemiterio falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bôcas esmagadas—
Tudo outro espasmo que principio ou fim…

sábado, 10 de março de 2012

Carta 77

Muitas vezes sucede, de facto, que deveriamos morrer e não queremos, ou que morremos mesmo sem o querer! Não há alguém tão estupido a ponto de ignorar que, mais tarde ou mais cedo, há-de morrer; no entanto, quando a morte se aproxima, as pessoas vacilam, tremem, choram. Não ter parece o cúmulo da imbecilidade alguém chorar  por não ter vivido mil anos atrás? Pois não é menos imbecil alguém que chore por já não viver daqui a mil anos. As situações são idênticas: não existiremos no futuro, tal como não existimos no passado; um e outro espaço de tempo ser-nos-á alheio. Tu foste projetado para este ponto de tempo: por muito que o alargues, até quando poderás alargáa-lo? Porque choras? Por que anseias? tudo será em vão:

Não esperes alterar com preces o destino fixado pelos deuses!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Carta 49

Tantos períodos num tão exíguo espaço de tempo! Ainda há pouco me despedi de ti quando partiste. Este "há pouco", contudo, representa uma boa parte da nossa curta existência, da qual, não o esqueçamos, em breve nos veremos privados. Habitualemte não me parecia tão veloz a passagem do tempo; agora, porém, parece-me incrivelmente rápida, talvez porque sinto aproximar-se o fim, talvez porque passei a dar-lher atenção e a avaliar o desgaste que em mim provoca. Por isso mesmo me causa indignação ver como as pessoas gastam em futilidades a maior parte de uma vida que, mesmo dispendida com a maior parcimónia, não seria bastante para as coisas essenciais.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Carta 44

Toda a gente ambiciona ter uma vida feliz; porque sucede então que quase todos falham o alvo? Pelo facto de se tornar por felicidade o que não passa de um meio para atingir; por isso, quanto mais a buscam, mais dela se afastam. O cúmulo da felicidade consiste numa perfeita segurança, numa inabalável confiança no seu valor; ora o que as pessoas fazem é arranjar motivos de preocupação, é percorrer a traiçoeira estrada da vida ajoujadas de pesados fardos.