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terça-feira, 4 de setembro de 2012

A leitura para os africanos por J.M. Coetzee



... "A leitura não é um entretenimento tipicamente africano. A música sim; a dança sim; a comida sim; a fala sim ... e abundante. Mas a leitura não, e especialmente a leitura de grandes romances. A leitura sempre foi considerada por nós, africanos, como algo de estranhamente solitário. Faz-nos sentir incomodados. Quando nós, africanos, visitamos as grandes cidades europeias, como Paris ou Londres, reparamos como as pessoas, nos comboios, tiram das sacas ou dos bolsos livros e se retiram para mundos solitários. Sempre que aparece um livro é como se erguessem um aviso: Deixem-me em paz, estou a ler. O que estou a ler é mais interessante do que vocês.
Bem, em África, não somos assim. Não gostamos de nos isolar dos outros para nos retirarmos para mundos só nossos. A África é um continente onde as pessoas gostam de partilhar coisas. Ler um livro sozinho, não é partilhar. É como comer sozinho ou falar sozinho. Não somos  assim. Achamos que é um bocado tonto." ...

Citando Emmanuel Egudu

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Infância

- Perdão, queira desculpar …

Um menino, correndo desenfreadamente, chocou comigo na saída dum Parque Infantil. Corria em direção a seus pais que o esperavam do outro lado da rua. Depois de o levantar, regressei a um passado infantil, que foi muito feliz. Como parque tínhamos a rua onde ficávamos invariavelmente empoeirados ou enlameados, caso chovesse. Jogávamos à bola, brincávamos aos cowboys, criávamos castelos imaginários e lutávamos com espadas como o Robin dos Bosques. Nas matinés de televisão, visionávamos as séries naif Bonanza ou A Casa da Pradaria. Sinto saudades desses tempos …

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Luanda


A primeira vista é sublime; os ramos vivos das palmeiras em frente a casa, quase entram pela janela adentro. Os mamoeiros são poiso para muitas aves canoras, especialmente ruidosas às primeiras horas da manhã. As zungueiras passam na rua com os seus pregões de “cachucho é … carapau é …”. O aroma das acácias mistura-se, por vezes com o da relva cortada. O estádio ocupa o centro do quarteirão. O relvado distingue-se do betão envolvente. As novas Torres da Baixa, mais ao longe, com suas fachadas envidraçadas, espelham o azul do céu e da baía.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Pregal

O nevoeiro foi-se dissipando lentamente e começam a observar-se algumas formas curiosas por entre o casario; um lago aqui, uma árvore acolá, parecia um teatro de sombras, cujos actores eram as nuvens. Indiferentes a este espectáculo singular, passavam, nos caminhos, as retardatárias a caminho da igreja. Por entre as poças de chuva, apertavam o passo, umas regressadas do campo, outras mais entretidas na lida da casa.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Madame Lambertin

Madame Lambertin passava todas as manhãs à porta de minha casa. Da janela do meu quarto, habituei-me a vê-la atravessar a rua todos os dias; tornara-se numa rotina. Em dias de sol, com a sua sombrinha amarela e roupa atrevida a condizer; nos dias de chuva, guarda-chuva negro e roupa a imitar uma viuvez imaginária. No regresso, o mesmo de sempre: uma cabazada de garrafas de Gueze. Esta peregrinação diária à brasserie da esquina, mudaram a tez viva desta trintona e o seu corpo anteriormente roliço já dava mostras de alguma secura.