Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a última face das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível. Nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial. Venho à varanda e debruço-me para a noite. Uma aragem quente banha-me a face, os cães ladram ao longe desde o escuro das quintas, fremem no ar os insectos nocturnos. Ah, o sol ilude e reconforta. Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objectos inertes, dominados, todos revelados às minhas mãos. Eis que os trespassa agora este fluido inicial e uma presença estremece na sua face de espectros... Mas dizer isto é tão absurdo! Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra. Nada mais há na vida do que o sentir original, aí onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, aonde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras. Eu te odeio, meu irmão das palavras que já sabes um vocábulo para este alarme de vísceras e dormes depois tranquilo e me apontas a cartilha onde tudo já vinha escrito... E eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e fugaz e invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos e nos escorre de suor quando se ergue à nossa face.
domingo, 20 de abril de 2014
Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a última face das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível. Nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial. Venho à varanda e debruço-me para a noite. Uma aragem quente banha-me a face, os cães ladram ao longe desde o escuro das quintas, fremem no ar os insectos nocturnos. Ah, o sol ilude e reconforta. Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objectos inertes, dominados, todos revelados às minhas mãos. Eis que os trespassa agora este fluido inicial e uma presença estremece na sua face de espectros... Mas dizer isto é tão absurdo! Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra. Nada mais há na vida do que o sentir original, aí onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, aonde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras. Eu te odeio, meu irmão das palavras que já sabes um vocábulo para este alarme de vísceras e dormes depois tranquilo e me apontas a cartilha onde tudo já vinha escrito... E eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e fugaz e invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos e nos escorre de suor quando se ergue à nossa face.
quinta-feira, 13 de março de 2014
É urgente o amor
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
ADEUS SOYO
Amanhã termina a
minha estadia no Soyo. Cheguei ao Soyo em Março de 2010 para uma viagem que
chega ao seu fim. As centenas de canais que serpenteiam o Rio Zaire são
testemunha da imensa felicidade que foi passar aqui estes quase quatro anos. Coincidiu
este período com o nascimento do meu filho, momento maior da minha vida. Passei
pelo pipeline e pelas obras de apoio
social: reconstruímos as estradas do Soyo, melhoramos o aeroporto, construímos
um hospital e uma escola. Fiz passeios de barco pelo incrível Rio Congo, desde
a Ponta do Padrão até à Praia da Sereia, passando pelas ilhas de pescadores,
que me receberam e deram, generosamente, do seu peixe para comer. Entrei em
canais, perdi-me no mangue imenso, rodeado apenas pelas aves canoras e pelos
cacussos lagunares. Não tenho dúvidas em afirmar que a baía de Pangui está
muito perto do paraíso. Recordo com emoção a viagem ao Sumba, sempre pela
margem do Rio Congo, e as três viagens entre Luanda e o Soyo por via terrestre.
A primeira, decisiva, logo em Setembro de 2009. Vi a cara de espanto do policia
no primeiro controlo junto à Barra do Dande, quando lhe disse, por volta da
meia noite, que iria iniciar sozinho uma viagem até ao Soyo. Outras se
seguiram, menos radicais pela picada imensa de 450 quilómetros passando por
Ambriz, Nzeto e pelo Quinzau (a terra do elefante). Parei nas tascas à beira da
estrada para comer o ginpuko, a paka, gazela, javali e pacaça, as iguarias dum
povo que ficou sem a caça que aos poucos regressa. Outros tempos, guerras que
ninguém entende mas que deixaram marca. Como os kiowas, povo mártir, que foram
dizimados em Tomboco. As chatas passam cheias de congoleses a fronteira
invisível do rio caudaloso e anunciam uma invasão silenciosa. O mangue vai
desaparecendo pelo crescimento habitacional e demográfico. Os animais fogem pela
pressão humana. No mercado há animais selvagens à venda. Nas lavras, cada vez
mais distantes, mulheres esforçadas cultivam a ginpinda e a kisaka que hão-de
levar ao mercado do Kungu-e-ngele transportadas nas traseiras de pick-ups ou em
cima de camiões por vezes descontrolados. O Mpinda está nos locais emblemáticos
desta cidade. Porto de saída de barcos negreiros, levando à força os braços que
moviam os engenhos de Pernambuco para adoçar o leite aos europeus. A missão
católica, com a sua avenida de mangueiras centenárias, apoiando um povo
empobrecido, apesar do subsolo esconder riquezas imensas de petróleo e gás.
Soyo cidade de breu profundo que ainda aguarda pela chama que nunca mais chega.
Aprendi os rudimentos do Kisolongo e tantas vezes ouvi cantar por entre risos
incontidos das senhoras vindas da lavra: “mundele kisolongo vovanga”. Ligaram-se as plataformas offshore à fábrica
que se construiu através de vários pipelines
e os navios preenchem agora a imensa foz do Rio Congo e levam o Gás Liquefeito
do Soyo a todo o mundo. Eu levo do Soyo memórias dum tempo bem passado e no
coração o afeto de pessoas que jamais esquecerei.
KOLELE! Lotomasala ki-a-biza.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Carta a meus filhos sobre "os fuzilamentos" de Goya - Jorge de Sena
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Noche del Amor Insomne
Noche arriba los dos con luna llena,
yo me puse a llorar y tú reías.
Tu desdén era un dios, las quejas mías
momentos y palomas en cadena.
Noche abajo los dos. Cristal de pena,
llorabas tú por hondas lejanías.
Mi dolor era un grupo de agonías
sobre tu débil corazón de arena.
La aurora nos unió sobre la cama,
las bocas puestas sobre el chorro helado
de una sangre sin fin que se derrama.
Y el sol entró por el balcón cerrado
y el coral de la vida abrió su rama
sobre mi corazón amortajado.
Federico Garcia Lorca
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
A terra dos homens com gancho
Um dia bateram à minha porta e encontrei um homem com ganchos que me queria vender uma fotografia de minha casa.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Erupção
Em Madrid fazem-se os preparativos para a organização dos Jogos Olímpicos. Instigados por um chefe omnipresente, dois agentes antiterroristas iniciam uma perseguição obsessiva. Onde está Mikel Gurutz, o etarra que acaba de se evadir da prisão? Que relação entre a sua rocambolesca fuga e a organização dos Jogos?
Getxo, país basco: quatro estudantes acabam de ser detidos. Um deles irá percorrer muitas cadeias. Pertencerá, realmente, a uma associação terrorista? Por que razão o deportam para a Venezuela?
Aparentemente, não há qualquer relação entre tudo isto e um inofensivo engenheiro, responsável pela construção do estádio olímpico. Mas, anos antes, as autoridades fecharam o jornal do seu pai, sob acusação de incentivo ao terrorismo. Que ocultará aquele encontro junto à raia portuguesa.
Baseado em casos reais da luta do povo basco, “Erupção” é um romance sobre as teias em que o Estado enreda aqueles que lutam pela libertação. Os seus personagens desfilam-nos, vítimas de processos kafkianos em que entram sem saberem como e de que não se conseguem livrar. Trata-se dum livro que abala os nossos preconceitos sobre verdade e mentira, sobre culpa e inocência, sobre bem e mal. Uma trama que surpreende e, sem pré-aviso, nos confronta com os abismos do terrorismo de Estado.
"O que surpreende em Erupção é a coragem com que João Machado pega sem tabus num tema tabu: a luta do povo basco e a forma pouco clara como o Estado espanhol a reprime. Trata-se duma obra que ganha particular atualidade, num momento em que a implosão do reino está na ordem do dia e ganha estatuto oficial" Luis Novais.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Paredes de Coura "Terra Amada"
O que une Toronto, Brisbane, Nuremberga, Newark, Luanda e Lisboa? A origem comum de alguns dos seus cidadãos: Paredes de Coura. E como se reencontraram vivendo em latitudes tão diferentes? Na comunidade virtual Paredes de Coura Terra Amada, um grupo do Facebook.
“A grande família” como já lhe chamam alguns surgiu duma ideia luminosa de Flávio Rodrigues, neto do conhecido Sr. Albano de Castanheira (o músico) que em boa hora a colocou em prática coadjuvado por alguns assistentes designados administradores. Estes, mais não são do que zeladores do espaço que é de todos os que nele se inscreveram. Nesta comunidade pratica-se uma democracia plena: não há hierarquias ou classes sociais e todos têm o direito de fazer publicações sobre Paredes de Coura. Existem algumas regras de participação que assentam no bom senso, no respeito por todos os facebookianos e não se comenta política nem futebol. Pretende-se com isto apenas salvaguardar o espírito do grupo e impedir abusos ou colocação de informações fora do contexto do Grupo. Os objetivos deste grupo são a divulgação do Património das Terras de Coura e o reencontro e confraternização entre os Courenses. Os participantes podem colocar os seus vídeos, fotos e comentários, seguem-se as discussões sempre muito animadas com recurso a memória fotográfica, recortes de jornais e testemunhos de pessoas mais velhas.
Recordamos as figuras típicas da terra como o Sr. Zé Nogueira, o Sr. Zé Carvalho, o Sr. João de S. Bento, o Sr. Eduardo da Farmácia, o Sr. Zezinho do Circo ou o Sr. Berto Pires e outros, figuras estimadas e grandes mulheres como a famosa Mila das Vacas que singrou num mundo predominantemente masculino, a D. Quitéria ou a D. Maria Cândida que fizeram parte da vivência social desta Terra e também alguns amigos precocemente falecidos como o Mingos, o Ginho ou o saudoso Rui Martins. Algumas profissões foram destacadas como os moleiros, carpinteiros de excelência como os Inocêncios, canteiros, tamanqueiros ou tintureiros como o Sr. Narciso Vieira. Não foram esquecidos os empresários Heitor Alves e Bernardo Chouzal.
Tem sido apresentado o pitoresco já desaparecido ou transformado relatando episódios da vida courense. A lavoura tem um lugar importante: as lavradas, sachadas, semeadas, desfolhadas e as vindimas já foram apresentadas ao longo destes dois meses. Abordamos outros Courenses, que não tendo nascido em Coura o são por adoção, como o Vassalo Abreu, funcionário das Finanças e atualmente autarca na Ponte da Barca, recordando a sua passagem pelo S. C. Courense como treinador, primeiro dos juniores e depois dos seniores. Assistimos à visita das velhas guardas do FC Porto ao antigo Campo do Testo, tendo como embaixadores o Sr. António Pi e o Sr. Tone Zé da Farmácia e também foram publicadas imagens da inauguração do Campo do S. C. Courense. O Padre Abreu, o Padre António, fotos de comunhões, casamentos, batizados e compasso Pascal. Não esquecendo as Festas do Concelho e as Festas por todo o Concelho especialmente no mês de Agosto onde se reúnem muitos Courenses de férias que regressam dos quatro cantos do mundo. O Dia do Corpo de Deus e o longo tapete florido, multicolor, que alcatifa a procissão nas ruas da Vila. Outras romarias emblemáticas em Coura, como as Festas de S. Martinho, a Srª do Livramento, a Srª da Pena e o S. Bento da Porta Aberta. Na velha tradição de levar o farnel para a festa foram lembradas as iguarias como o Bolo do Tacho, a Truta do Rio Coura, o Bacalhau à Miquelina, a vasta doçaria e o sempre requisitado Vinho da Marnota.
Assistimos também a reencontros emocionantes de primos que nunca se viram, uns no Canadá, outros na Austrália, nem sabiam da existência uns dos outros e neste Grupo perceberam que eram da mesma família.
As imagens da Casa do Outeiro, em Agualonga ou da Casa Grande de Romarigães, imortalizada na obra do prosador maior Aquilino ou as imagens do seu sogro em Mantelães, antigo Presidente da República são autênticas relíquias históricas. Especulamos sobre os negócios do fundador do Município, no Paraguai, informação transmitida pelo eminente Professor José Hermano Saraiva no seu Programa Televisivo que relativo a Paredes de Coura teve o título de “O Último Paraíso”. Está documentada a forma como evoluiu a Vila, as ruas, as casas mais antigas que foram demolidas e as que foram construídas. Há fotografias de várias épocas retratando o enorme desenvolvimento urbanístico que sofreu.
As belezas naturais na Valsa, na Boalhosa, no Taboão e nas Penizes ou os garranos à solta no Corno de Bico são retratos que emocionam. Recantos escondidos em Reirigo ou em Chavião, umas alminhas aqui, um nicho escondido acolá, por detrás dumas heras encontramos um pormenor duma casa em cantaria fina esculpida por mãos calejadas e habilidosas.
Há uma alusão especial ao Festival de Paredes de Coura. Sem dúvida o evento que se tornou no maior divulgador de Coura em Portugal e no Mundo invadindo os meios de comunicação social. Foram publicadas dezenas de fotos com os campos, antes verdes, agora matizados pelas tendas nas duas margens do rio.
Este Grupo ultrapassou já a fasquia dos 3000 seguidores. No dia em que escrevo estas linhas já são 3208. É muita gente, gente Courense que tem conta no Facebook. Pretendemos publicar o valioso espólio já registado. Contamos aumentar a participação de todas as freguesias, especialmente as mais distantes da Sede do Concelho, como Vascões, Porreiras, Insalde, Romarigães e Rubiães. Foram já publicadas milhares de fotos, algumas delas muito raras que fazem parte da nossa história comum. Como resultado da enorme dinâmica criada, surgiu a ideia para um convívio de internautas. Essa ideia vai-se materializar no próximo mês de Agosto no Monte da Irijó. O evento a realizar a 10 de Agosto será apadrinhado pela Associação de Formariz que prestará toda a colaboração e está aberto a todos os Courenses.
Publicado em "Noticias de Coura", no dia 30 de Abril de 2013
sábado, 20 de abril de 2013
O Fim da Monarquia
Pum pum pum. O trovejar do fogo preso em forma de lágrima dourada que cai em cascata pela borda da cobertura do Estádio Olimpico é escutado em todo o Mundo. O Rei fica apreensivo e olha para o Príncipe que, extasiado, aplaude o sobrinho à frente de toda a delegação nacional. O porta-estandarte entra triunfante pela pista do areopago em delírio. A Rainha e a filha, emocionam-se e deixam cair duas lágrimas.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Almofada Vermelha
Sobre a almofada vermelha, com a cabeça ligeiramente inclinada para a janela onde pendiam longos cortinados vermelhos interiorizava a ideia, em si absurda por nunca a poder realizar e ser completamente inviável dada a sua situação atual: desempregado, sem dinheiro e com o horizonte fechado à sua frente. Logo pela manhã cedo tinha recebido o inesperado convite para almoçar. Já não a contactava há dois meses e vislumbrou na voz embargada a existência dum problema grave.
Na esplanada do restaurante, debaixo do toldo verde com pontas azuis e amarelas drapejando, suavemente empurrados por uma aragem oeste vinda do mar azul a notícia chegou de chofre, repentina, agreste e sem lhe dar capacidade de resposta:
- Estou grávida. Quero muito ter este filho. – Disse ela em tom irado.
A estrondosa declaração deixou-o sem palavras. Ela mirou-o com um intenso brilho nos olhos. Estava impassível e não movia as pestanas. Clara era ainda uma miúda e olhava-o com um ar desafiante de pessoa crescida. A relação que tiveram foi fugaz e descomprometida e nada levava a crer que tivesse um desenlace tão concebido. Desde manhã cedo que tinha a sensação que alguma coisa não iria correr bem. Ansioso, vagueou pela Avenida até serem horas. As longas arcadas, o casario tradicional e as torres dos Congregados testemunharam o vaivém irregular desde o Largo do Paço até à Senhora-a-Branca com as mãos enfiadas nos bolsos e com o rosto fixando a calçada portuguesa. Não terminou o almoço. Entrou em litígio com a sua adjuvante e abandonou o local rapidamente numa convulsão que não deixou indiferentes os vizinhos de mesa. Consciente das implicações que este novo acontecimento poderia ter para a sua vida zarpou sem olhar para trás porque não queria ter filhos. Uma mulher vinte anos mais nova e sem perspetivas de futuro, com quem teve uma relação fortuita e com quem não tem projeto de vida a dois. O facto de ter recebido a notícia a dois tempos deixou-o perplexo e sem capacidade negocial, o filho deveria nascer! Com certeza tinha tido o apoio da família e dos amigos e as respostas bem estudadas a possíveis tentativas para reverter a situação. Não a conseguiu demover. Confrontou-a com a possibilidade da gravidez não ter sido provocada por ele e recebeu resposta pronta e convincente:
- Nunca mais me deitei com nenhum homem. Se quiseres fazemos um teste de ADN.
Entrou em casa já ao fim da tarde depois de ter formigado alguns bares da cidade. Segurou a sua almofada vermelha e poisou-a em cima da cama. Bastante azamboado deitou-se sem mais demora.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Nvula
Do céu cinzento que se desfaz
Caem fortes bátegas tropicais
Alimentando minados solos férteis
Onde as mulheres zungam fuba e peixe nos canais
Nesta Quadra de ilusões desiguais,
Nas intermináveis serpentinas o mangue não cede
Por todo o lado se ouvem despautérios matinais
Todos procuram a tença que lhes tire a sede
Desesperados fogem pela rua
Duma paz que não se encontra
Pequena palavra que se encontra toda nua
Do lado de lá fitam a enorme montra
Embarcam em Kinshasa e Boma
Aqueles a quem a míngua não permite discernir
O sonho de encontrar esta terra
Até serem repatriados sem tugir!
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Paquete Funchal
Os passos tropegos do Comandante são seguidos pelas objetivas das cameras de televisão. Foi o último a descer. A situação tornara-se insustentável! Quatro corajosos marinheiros permaneceram amarrados durante dois anos a uma doca inóspita e sem rumo traçado. A certeza dum fim anunciado pela ausência duma resposta cobardemente adiada pelo armador. Finalmente lá apareceu com ar cadavérico a anunciar que os sacrifícios também se alargam aos donos que não recebem ordenado. Foram quatro meses sem pagamentos e dois anos atracados a uma vida que se enterrou no Cais da Matinha.
Por onde antes saíam animados turistas tostados zarpam agora os quatro últimos marinheiros do Funchal. O esplendor e brilho da chegada contrastam com a ferrugem e o cinzento que agora são visiveis neste monstro adormecido. Sem água nem energia para dar vida aos candeeiros de lustre que outrora iluminavam as salas de dança. É um fado que se repete ... fechar, encerrar, terminar ... está tudo a colocar a aldraba e depois quem vai novamente abrir os horizontes desta gente?
domingo, 16 de setembro de 2012
Desgraça - J.M. Coetzee
Não posso esquecer este dia, pensa ele, deitado ao lado dela, os dois extenuados. Depois da carne jovem e doce de Melanie Isaacs, é a isto que eu venho parar. É a isto que tenho de começar a habituar-me, a isto e a pior.
sábado, 8 de setembro de 2012
As touradas (por J.M. Coetzee)
"A tourada, parece-me, dá-nos uma pista. Matem o animal à vontade, dizem eles, mas transformem isso numa competição, num ritual, e louvem a força e a coragem do adversário. Comam-no também, depois de o vencerem, para absorverem essa força e essa coragem. Olhem-no nos olhos antes de o matar e, depois, agradeçam-lhe. Celebrem-no em canções.
Chamamos a isto primitivismo. Esta atitude é fácil de criticar, de censurar. É profundamente masculina, viril. Desconfiamos das suas ramificações politicas, mas, depois de tudo dito e feito, há uma certa atração que permanece a um nivel ético.
Contudo, também é inviável. Os esforços dos matadores ou dos caçadores de veados, armados de arcos e setas, não dão para alimentar quatro mil milhoes de pessoas. Já somos muitos. Já não há tempo para respeitar nem para louvar todos os animais necessários à nossa alimentação. Precisamos de fábricas de morte; precisamos de unidades de criação de gado. Chicago mostrou-nos o que devia ser feito; foi com os currais de animais de abate de Chicago que os Nazis aprenderam a processar os corpos."
Chamamos a isto primitivismo. Esta atitude é fácil de criticar, de censurar. É profundamente masculina, viril. Desconfiamos das suas ramificações politicas, mas, depois de tudo dito e feito, há uma certa atração que permanece a um nivel ético.
Contudo, também é inviável. Os esforços dos matadores ou dos caçadores de veados, armados de arcos e setas, não dão para alimentar quatro mil milhoes de pessoas. Já somos muitos. Já não há tempo para respeitar nem para louvar todos os animais necessários à nossa alimentação. Precisamos de fábricas de morte; precisamos de unidades de criação de gado. Chicago mostrou-nos o que devia ser feito; foi com os currais de animais de abate de Chicago que os Nazis aprenderam a processar os corpos."
terça-feira, 4 de setembro de 2012
A leitura para os africanos por J.M. Coetzee
... "A leitura não é um entretenimento tipicamente africano. A música sim; a dança sim; a comida sim; a fala sim ... e abundante. Mas a leitura não, e especialmente a leitura de grandes romances. A leitura sempre foi considerada por nós, africanos, como algo de estranhamente solitário. Faz-nos sentir incomodados. Quando nós, africanos, visitamos as grandes cidades europeias, como Paris ou Londres, reparamos como as pessoas, nos comboios, tiram das sacas ou dos bolsos livros e se retiram para mundos solitários. Sempre que aparece um livro é como se erguessem um aviso: Deixem-me em paz, estou a ler. O que estou a ler é mais interessante do que vocês.
Bem, em África, não somos assim. Não gostamos de nos isolar dos outros para nos retirarmos para mundos só nossos. A África é um continente onde as pessoas gostam de partilhar coisas. Ler um livro sozinho, não é partilhar. É como comer sozinho ou falar sozinho. Não somos assim. Achamos que é um bocado tonto." ...
Citando Emmanuel Egudu
terça-feira, 22 de maio de 2012
ser religioso! valter hugo mãe
ser religioso é desenvolver uma mariquice no espírito. um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bicho papão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos, esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua mini-saia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças, o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Sinais de Fogo (Jorge de Sena)
A diferença que havia entre ela e a Mercedes era tão grande! Como a que ia de uma escada escura até ao mar largo em frente à balaustrada. Não escreveria. Tudo acabaria em silêncio, eu não lhe apareceria mais. Ela não tivera para mim a mínima importância. E era uma rapariga que, mal me conhecendo, quase se me entregara. E eu mal a conhecia. Senti um baque surdo. E a Mercedes, eu conhecia-a melhor? Noiva do Almeida, não se abandonara aos meus braços e aos meus beijos? Não os procurava até? Porque afinal gostava de mim, e porque eu gostava dela. Ao ver-me, ela percebera que de mim é que gostava. Novamente ouvi o Macedo dizendo as suas tolices. Sim ... mas era de mim que ela gostava. E desci para o jantar.
sábado, 7 de abril de 2012
Roubalheira (A Mina de Diamantes)
A diferença que há entre a Europa e a América é que na América a roubalheira é organizada e aqui, não digo desorganizada, mas no estado de inorgânica. Na América tudo molha a sua sopa: o ministro, o vereador, o mestre-de-obras, o dono do hotel, o merceeiro, o engraxate. É o círculo napolitano dos comilões. Um mete a mão no bolso do vizinho, o vizinho no bolso do parceiro mais próximo, aquele no que está a seguir, assim por diante. Fechado o circuito, todos roubaram, portanto ninguém ficou roubado. Na Europa não. Nem sempre rouba o ministro, mas deixa roubar o secretário. Rouba o senador ou ajuda a roubar; não rouba o magistrado, mas fecha os olhos. Não rouba o chefe, mas permite que roube o manga-de-alpaca; rouba o estalajadeiro; rouba, se pode, o criado de mesa; rouba o engraxador ...
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Democracia (Rimbaud)
A bandeira reflecte a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.
Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.
Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.
Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz; inaptos para a ciência, esgotadospara o conforto; e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!
Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.
Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.
Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz; inaptos para a ciência, esgotadospara o conforto; e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!
quinta-feira, 29 de março de 2012
Aulo Gélio sobre Séneca
Já estou a ficar cansado de Séneca. Ache quem quiser que Séneca merece ser lido e estudado pelos jovens, ele que achou por bem comparar a gravidade e o tom dos autores arcaicos com os leitos de Sotérico, isto é, com moveis destituidos de beleza, já passados de moda, monos de que ninguém gosta. Apesar de tudo, vale a pena citar alguma coisa, pouca, de Séneca digna de menção, como é aquele seu excelente dito dirigido a um avarento, ambicioso até mais não, atormentado pela sede de dinheiro: "Que importam os bens que possuis se muito mais numerosos são aqueles que não possuis?"
Subscrever:
Mensagens (Atom)





